a role play

A Role Play, obra central da exposição Default de Roberto Winter, é um falso documentário, uma espécie de mockumentary. Não plenamente paródico pois é repleto de momentos de análise mais do que sérios, momentos até mesmo solenes e perturbadores. Claro que imagino ser evidente que isso é parte da construção fabular. Mas não deixa de ser o mais cativante no vídeo, que salta de momentos de zoeira e ridículo a momentos quase cerimoniosos e de revolta.
Dois pontos que me parecem importantes sobre seus trabalhos, de modo geral, são: trata-se de um jogo complexo entre o excesso de informação e sua carência – quando se entra minimamente em contato com a riqueza e com a complexidade de onde partem as suas ideias, fica-se mesmo confuso com um certo desprendimento do artista –; Winter ressalta uma estranha relação entre o arremedo, a simulação e a dissimulação formal e conceitual (fico pensando se essa certa circunspeção não é só de sacanagem) e a seriedade real no trato dos temas e indagações, especialmente quando se referem à política e à metalinguística de onde partem seus projetos. Quando digo “paródia” continua sendo problemático, pois são trabalhos que, materialmente..., expõem várias vezes com uma sobriedade que chega a ser opressiva. Esses trabalhos nos criam uma expectativa e uma decorrente frustação, pois há poucas pistas que remetem à origem conceitual de onde partem os exercícios de desconstrução, síntese ou pura reapresentação pervertida de seus questionamentos e pesquisas.
A presença do vídeo – que justamente por remeter a documentários cria uma expectativa por descrições e explicações -, não torna os outros trabalhos menos herméticos. Quem está acostumado aos trabalhos de Winter sabe que os pontos de partida que seus trabalhos nos oferecem tornam-se transparentes a ponto de quase sumirem, deixando-nos paulatinamente alhures. Alguns mais, outros menos, mas em todos parece subjazer um discurso demasiado complexo, até mesmo para o que, em um exercício de leitura o mais acurado possível, pode fazer emergir interpretações que convirjam, com mais proximidade, com o que foi supostamente pensado ou projetado em suas origens...
O que é isto, esse objeto? Vamos olhar pra ele.
Esse jogos ou perturbações entre a complexidade e a síntese também não precisam ser problematizados de forma a se apresentarem como uma intenção essencial que amarre e permeie sua produção. Em conversa com o artista, percebemos que essa condição parece ser bem menos preocupante, como se estivesse mesmo jogando a escada após tê-la utilizado. Ou um jogo Fort-da com interpretações admissíveis. Em um vídeo anterior, Revolution Institution, Winter diz: “Traçar um histórico da máscara Guy Fawkes talvez tenha se tornado inútil. Inútil não porque não leva a lugar nenhum, mas porque provavelmente levaria a lugares demais”.
Tudo o que eu queria era entender aquilo.
Alguns interesses que atravessam os trabalhos... teorias conspiratórias por exemplo... (escrevo isso mais focado no vídeo, pois seria bem redutivo propor conspirações como uma chave interpretativa) talvez colocando assim poderia soar como se os estivesse infantilizando. O próprio termo “teoria da conspiração” parece banalizado e banalizante, apesar de ser, hoje em dia, contraditoriamente, até mesmo um tipo de perspectiva interpretativa do mundo praticamente legitimizada.
Se tempos atrás, quando era natural que se pairassem dúvidas ou mesmo quando se marginalizava documentários conspiratórios graças a seus exageros e desmontes de discursos tradicionais sobre política, estes foram se tornando cada vez mais abertos até um ponto que, mesmo mantendo certo nexo e uniformidade, perdessem contraditoriamente seu sentido de verossimilitude. Mas isso simplesmente se tornou cada vez mais normalizado, alinhado à paranoia inevitável e também, vejam só, à “alienação engajada“ pois tais características se tornaram predominantes no discurso contemporâneo ordinário.
Eles (psicopatas) te convencem de coisas, de coisas que não são reais.
A Role Play coincide com o documentário HyperNormalization, de Adam Curtis. O título é de um termo cunhado das década de 70/80 pelo escritor Alexei Yurchak na União Soviética e se refere a um fenômeno de acordo tácito, onde temos a perda completa de credibilidade nos discursos do governo e da mídia e a paradoxal aceitação displicente ou apática dos mesmos discursos pela sociedade enquanto mínima possibilidade de um real “compreensível” ou “vivível”. Pior, como sugerido no documentário, caminhamos já há algum tempo uma trajetória doentia em que, quanto mais irrealidade, ficção e hiperbolicidade, mais factual é o “acontecimento”. O diretor inglês é famoso por seu tom deliberadamente conspiratório, que faz com que seja recorrente a sensação de que em certos momentos, que flertam com delírios persecutórios, tudo até mesmo o documentário não seja no fundo mais do que uma piada.
Em A Role Play temos também todo um desfile paródico de estratégias e dispositivos informacionais contemporâneos e uma representação das formas de criação de ambiências paranoicas (apenas o catastrófico é verossímil).
O exagero (um exagero ambíguo... na imensa maioria da vezes exageros empobrecedores também, porém planejados)  aparece em um tom excessivo ou histriônico – a quantidade e a minúcia da informação anunciam sua inutilidade. Mas ele quase sempre é cortado pelos momentos em que o caráter farsesco e engraçado do vídeo se torna ainda mais gritante.
A rapidez na produção de enunciados pesudocientíficos, a miscelânea de termos técnicos que aparecem no documentário de Curtis (que se propõe sério), parecem, em A Role Play, estar ainda mesclados a uma bem estudada simulação da prosódia revolucionária como a do grupo Tqqun e outras fantasias subversivas... lembrar também da confusão do próprio narrador Joaquim K, que mantém um universo complexo de referenciais (menos tecnicistas mas despudoradamente conspiratórias)... quase todo tempo perdido... tão perdido como todos os personagens: jornalista, maestro(?), hacker, advogado, etc.
Eles querem que você ache que você é capaz de compreender, e eles fazem isso explicando tudo de um jeito tão idiota que você certamente nunca entenderá nada.
O que a meu ver torna interessante a presença de A Role Play também junto aos outros trabalhos de Winter na exposição é a possibilidade de uma leitura que não seja exatamente a partir do vídeo. Ou seja, levando-se em consideração as falas do próprio narrador em primeira pessoa como algo que, forçando um pouco a barra, poderíamos ter como a de uma espécie de alter ego do próprio artista, onde este estivesse fazendo reflexões sobre um jogo alegórico dúbio entre sistema de arte e de política. Por exemplo a insistência na diatribe real/ficcional nas diferentes camadas de verdade acabam embrenhadas de tal forma que é inevitável perderem sua relevância enquanto tais. A incertitude quanto à autoria, quanto ao seu objeto, quanto ao seu caminho teleológico e interpretativo, quanto à legitimidade dos processos intrínsecos de manutenção do próprio sistema (no caso da arte)... até mesmo uma indeterminação quanto à sua relevância... mas como colocado ao final de A Role Play : mas você está bem com isso... não é?
O mais sensato é ver tudo como uma brincadeira infantil e inconsequente.