a partir de uma economia discursiva enfadonha

A estrutura edital tem como pró-forma a exigência que o artista explique e descreva não apenas a construção laboral e a arquitetura de seus trabalhos mas também algo que seria sua intenção, melhor dizendo: um primeira tradução escrita daquilo que será ainda retraduzido mais algumas vezes em sua trajetória expositiva. Nesse caminho normalmente a tradução menos documentada seja mesmo a do “público”. 
Uma exposição é sempre um evento, mesmo onde exposições são perenes. Os espaços culturais onde ocorrem exposições parecem que sempre existirão assim como seu público. Os artistas que preenchem esses espaços sempre existirão - o público por mais estranho que pareça também. Os artistas precisam justificar sua presença alí - o público por mais estranho que pareça também, mas de outra forma. 
Muitas vezes artistas estão alí por terem passado por um edital. Um edital é uma espécie de concurso, com seus critérios e um júri. Mas como em todo concurso há uma forma viciada e uma cartilha com seus temas e procedimentos específicos, previstos. 
Dentre procedimentos e ardis temos como exemplo a de realocar significados. Supondo o significado de maquete, insistindo em uma outra significação ou uma interpretação que ultrapassa a ordinária: poderíamos muito bem ter maquete como a tentativa de construir algo que não representa nada ou que somente representaria a si mesma. Não representar uma construção mas ser uma construção. Ser uma construção, sabemos, está alí, existe. Mas na relações possíveis de objetos que se expõem insólitos e interessantes em seu próprio interesse não necessariamente é prevista a mínima simples afirmação de seu sentido para/ou de alguém que está fora do jogo. 
Mas ao menos que jogos com tautologias ainda sejam lúdicos? Que se jogue, e que se force os significados até seu colapso. Mas e quando há uma outra crise? Mais premente e direta. Que também clama ser representada ou reapresentada. 
Talvez em momentos de crise precisamos não apenas nos reafirmar. Precisaríamos nos colocar em termos relacionais. Vamos supor... pensar que temos menos relevância no universo... 
Veja que bordados se tornam um vínculo com a natureza ou um lampejo de resistência contra sua destruição. Contumaz, desde que o esmero na representação complexa de uma árvore acaba perdendo sua importância. Temos definições de categorias dentro de uma mesma categoria. É também imposta uma obrigação de descrição arqueológica ou mesmo ontológica ( vínculos ancestrais, viscerais com a natureza humana ou mesmo transcendentais). Não é suficiente que sejam bordados por mais que sejam bordados... devem ser triplamente qualificados (como algum tipo de homicídio intelectual, cuja razão deve ser tão clara como obscura). 
Peço desculpas, mas os elementos de uma pintura não deslocam a realidade sequer da própria pintura onde supostamente isso poderia ser insinuado “poeticamente”. Sabendo que estou hiperinterpretando... só devolvo o recíproco... 
Usei dois exemplos superficiais que em hipótese alguma tocam os trabalhos em si. Mas nos discursos que apresentariam estes trabalhos. Além disso nos protocolos estanques e repetitivos. Nos rituais e naquilo que mais penso sustentar a alienação estruturante dos editais e consequente marasmo e distanciamento do “público”... A obrigação do exagero discursivo proporcional a um estranho decoro... justamente por inaudito e na maioria das vezes desnecessário. Talvez fosse imprescindível uma outra forma de excesso. 
Coloco isso não como uma crítica aos artistas apenas, mas à forma exausta dos torneios desconcertantes que viciam as instituições... há sim uma beleza numa insistente rearticulação ou deslocação de um significado... ou mesmo quando descontextualirizados podemos reencontrar algo que havia se perdido demais no ordinário, mas e quando essas estratagemas se tornam tão previsíveis... torna-se também previsível sua redundância e assim sua desimportância e assim seu desaparecimento... 
O distanciamento (neutralidade) que a princípio demonstraria uma certa imparcialidade nas escolhas de trabalhos em editais públicos também por sua vez alimenta um discurso vazio e alienado dos artistas... muitos que se sentem confortáveis na maneira como são tratados, previstos, pensados e aceitos nesta mesma estrutura que alimenta o que contraditoriamente me parece tolher mais do que acolher... iniciativas hoje mais necessárias do que as previstas e confortáveis (e infelizmente cansadas de si próprias)... tolhem especialmente iniciativas que trariam uma outra forma de excesso... 
Em um momento em que vemos a facilidade como se desmonta projetos culturais... esse engessamento discursivo encontrado nas proposições é mais do que inexplicável é contraproducente. Penso essa repetição, essa previsibilidade nas estruturas somada a uma certa intelectualização pomposa (não sugiro aqui restrições suntuárias pois este que vos escreve também tem seus pequenos vícios de escrita) parece se sustentar mais por comodismo do que necessidade. Entender que a repetição de formas é confortável é entende-la como contaminante também. 
Colocada também uma espécie de sazonalidade de temas na arte contemporânea. Boris Groys em “The economy of attention” aponta de forma até irônica que momentos de extrema sisudez e parcimônia podem ser bruscamente interrompidos por momentos histéricos e pomposos e depois retornam. Como a emergência da arte conceitual “espartana” dar lugar a pinturas ostensivas (ou o conhecido “retorno a ordem”). Ele não se aprofunda no assunto, mas não parece ser assim tão difícil compreende-lo: Groys aponta uma saturação dialética autoindulgente. A própria crítica precisa de casos (diferentes desde que os mesmos). 
Há sim uma espécie de ostentação intelectual bem especifica somada a autoproteção e a tendência ao gregarismo. Na verdade isso não é nenhum pecado. Mas me parece que há inversões abruptas demais nos interesses que sempre retornam os mesmos e uma certa alienação ou descolamento. Gostaria apenas de apontar o quanto isso pode realmente afetar nossa compreensão dos trabalhos ou mesmo na maior parte das vezes tornar toda ambiência “artística”ainda mais enfadonha do que já suposto por uma visão estereotípica do que de forma embotada pela nossa crença em nossa distinção chamamos de público.